O dilema do especialista: a “maldição do conhecimento”
Imagine a cena: um especialista técnico, brilhante em sua área, entrega um PDF com mais de 200 páginas ou uma apresentação de slides lotada de texto denso.
A recomendação dele é direta: “Está tudo aí, tudo é importante”.
Para um gestor de treinamentos, essa situação é um pesadelo familiar. Por um lado, há a certeza de que esse formato não vai funcionar. Por outro, existe o medo de cortar informações e comprometer a precisão técnica que é tão crucial.
Essa dificuldade tem um nome: a “maldição do conhecimento”.
Ela ocorre quando uma pessoa, por ser especialista em um assunto, não consegue mais se colocar no lugar de quem não sabe nada sobre aquilo. O que para ela é óbvio, para o aprendiz é um labirinto de jargões e conceitos abstratos.
A boa notícia é que a solução não está em “emburrecer” o conteúdo. O segredo é traduzi-lo. Trata-se de um exercício de acessibilidade cognitiva, transformando a complexidade técnica em conhecimento aplicável.
O objetivo é capacitar a equipe, não sobrecarregá-la.
Passo 1: A curadoria — O que é “Need to Know” vs. “Nice to Know”
O primeiro passo para simplificar é, inevitavelmente, cortar. Mas como fazer isso sem sacrificar a essência?
A chave está em diferenciar o que é vital para a execução de uma tarefa (Need to Know) do que é apenas aprofundamento teórico ou curiosidade (Nice to Know).
A técnica é simples, mas poderosa. Para cada peça de informação, pergunte-se:
“Isso muda a forma como o colaborador executa uma ação?”
Se a resposta for não, essa informação provavelmente não precisa estar no treinamento principal. Ela pode ser oferecida como material de apoio, um glossário ou um guia de consulta.
Concentrar-se no “Need to Know” garante que o treinamento seja focado e diretamente ligado às atividades do dia a dia, aumentando drasticamente a retenção do conhecimento.
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Passo 2: A tradução da linguagem — do abstrato para o concreto
Depois de filtrar o que é essencial, o próximo desafio é traduzir o “tecnês”. Conteúdos técnicos costumam ser escritos em uma linguagem passiva, impessoal e abstrata. Para criar engajamento, precisamos fazer o oposto.
1. Use analogias e metáforas
Como explicar o funcionamento de um software complexo? Compare-o com algo do cotidiano. Um sistema de gerenciamento de projetos pode ser como o Waze: ele mostra a melhor rota para chegar ao destino (fim do projeto), recalcula se algo inesperado acontece e mostra onde estão os “engarrafamentos” (gargalos). Analogias criam pontes mentais imediatas.
2. Prefira a voz ativa
A linguagem técnica adora a voz passiva, o que a torna distante e confusa. Veja a diferença:
❌ Voz passiva: “A válvula de segurança deve ser acionada em caso de superaquecimento.”
✅ Voz ativa: “Se o sistema superaquecer, gire a válvula vermelha para a direita.”
A segunda opção é uma instrução clara. Ela diz quem faz o quê, eliminando ambiguidades.
3. Humanize a comunicação
Fale diretamente com quem está aprendendo. Troque termos como “o operador” ou “o usuário” por “você”. Essa simples mudança transforma um monólogo impessoal em uma conversa.
Passo 3: O poder dos formatos visuais (Microlearning e Vídeo)
Ninguém tem disposição para ler um manual de 50 páginas de uma só vez. No entanto, a maioria das pessoas assiste a uma série de vídeos curtos de 3 minutos sem pensar duas vezes.
Transformar um conteúdo denso em pílulas de conhecimento (microlearning) é uma das estratégias mais eficazes.
Além disso, o pensamento visual (visual thinking) é um grande aliado. Muitas vezes, um infográfico bem desenhado pode substituir três parágrafos de texto denso. Um vídeo curto demonstrando um procedimento é infinitamente mais eficaz do que um longo texto descrevendo-o.
O diferencial da co-criação: o “advogado do aluno”
Transformar conteúdo técnico não deve ser uma tarefa solitária. A co-criação entre o especialista técnico e o Designer Instrucional (DI) é fundamental.
Nesse processo, o DI assume um papel crucial: o de “advogado do aluno”.
Ele atua como o primeiro estudante, fazendo as perguntas que o colaborador final faria, mas muitas vezes tem vergonha de perguntar: “O que essa sigla significa?”, “Pode me dar um exemplo prático?”.
Conclusão
Simplificar conteúdo técnico não é sobre remover profundidade, mas sobre adicionar clareza.
Um treinamento que traduz o “tecniquês” para a prática gera menos erros operacionais, reduz o retrabalho e cria colaboradores mais confiantes. Investir nessa transformação é investir diretamente na eficiência da sua organização.
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